Cuidando de Quem Cuida: um olhar para quem também precisa ser acolhida
Cuidando de Quem Cuida: um olhar para quem também precisa ser acolhida
Foi a convivência próxima com famílias atípicas que despertou em Aline Sampaio o desejo de olhar para uma realidade muitas vezes invisível: a das mães e mulheres que dedicam suas vidas ao cuidado de pessoas com deficiência e, tantas vezes, acabam esquecendo de cuidar de si mesmas.
Desde 2021, Aline passou a acompanhar de perto essas famílias, conhecendo suas necessidades, dores, desafios e histórias. Ao longo dessa caminhada, percebeu que grande parte dos atendimentos e cuidados estava concentrada nas crianças, enquanto as mães e responsáveis muitas vezes não tinham sequer onde buscar uma informação ou encontrar apoio.
Um relato, em especial, a marcou profundamente. Uma mãe contou que não havia conseguido comparecer ao seu posto de voluntária porque estava há dois dias sem tomar banho, por não ter dinheiro para isso. A história despertou em Aline a certeza de que era preciso fazer algo não apenas por aquela mulher, mas por tantas outras que enfrentavam situações semelhantes. Foi então que nasceu o primeiro Natal Solidário.
Com o passar do tempo, novas histórias revelaram uma realidade ainda mais delicada: mães sobrecarregadas, algumas enfrentando depressão profunda, sem rede de apoio e que chegaram a passar mais de 30 dias internadas com seus filhos, sem ter quem as auxiliasse.Foi desse olhar atento e dessa necessidade de acolhimento que nasceu o Cuidando de Quem Cuida.
Inicialmente, o projeto surgiu como um evento. Uma manhã dedicada ao autocuidado, com palestra, café da manhã e momentos de descontração. O encontro foi tão significativo que ganhou novas edições, realizadas anualmente. Aline promoveu a segunda e a terceira edição, mas percebeu que ainda era pouco diante de tudo o que aquelas mulheres precisavam. Assim, o que começou como um evento se transformou em um projeto permanente de acolhimento.
Neste primeiro momento, o Cuidando de Quem Cuida terá um encontro mensal, com rodas de conversa e espaço para que essas mulheres possam falar, compartilhar suas experiências e, principalmente, serem ouvidas. A proposta também é resgatar algo que muitas vezes fica esquecido em meio à rotina intensa de cuidados: a mulher que existe além da mãe.
Aline faz questão de ressaltar que o projeto está sendo construído passo a passo, com responsabilidade. Novas ações e serviços serão incorporados à medida que a estrutura e as parcerias forem sendo consolidadas.
Podem participar mães atípicas e mulheres responsáveis pelos cuidados de pessoas com deficiência. Para ingressar no projeto, é necessário entrar em contato com a equipe. A assistente social fará o primeiro acolhimento, conhecerá a realidade da família e ajudará a identificar suas necessidades.
A intenção, porém, vai muito além dos encontros. O sonho é ampliar gradualmente a atuação: primeiro mensal, depois quinzenal, semanal e, futuramente, chegar a um atendimento diário. A proposta também contempla o acompanhamento dessas famílias em suas próprias casas, com um olhar individualizado, próximo e, sobretudo, humano.
Para que esse projeto cresça, a participação de empresas e profissionais parceiros será fundamental. O apoio poderá acontecer de diferentes maneiras: financeira, material ou por meio da oferta de serviços e conhecimento. Mais do que patrocinadores, Aline busca parceiros que compreendam verdadeiramente o propósito da iniciativa.
Empresas, clínicas, salões de beleza, profissionais da saúde, empreendedores e pessoas que tenham alguma possibilidade de contribuir podem fazer parte dessa rede. Afinal, aquilo que pode parecer pequeno para quem oferece pode representar um momento enorme e significativo na vida de uma dessas mulheres.
E quando fala sobre o principal objetivo do projeto, Aline resume em uma frase que traduz toda a essência do Cuidando de Quem Cuida: se conseguir fazer uma mãe perceber que ela não precisa carregar tudo sozinha, o projeto já terá valido a pena.
A iniciativa nasce com o desejo de levar informação, criar vínculos, oferecer apoio e, acima de tudo, proporcionar um espaço onde essas mulheres possam se sentir vistas, ouvidas e acolhidas.
Mas existe ainda um propósito muito especial: lembrá-las de que, antes e além de serem mães, elas também são mulheres. Mulheres que têm sonhos, desejos, planos, vontades, que gostam de se cuidar, sair, conversar e viver novas experiências.
Porque, muitas vezes, a rotina de cuidados é tão intensa que elas acabam se colocando sempre em último lugar e, pouco a pouco, deixam de olhar para si mesmas.
O Cuidando de Quem Cuida chega também para ser esse lembrete: ser mãe não apaga quem aquela mulher é. Ela continua merecendo cuidado, atenção, carinho e espaço para viver a própria vida.
E para aquela mãe que hoje se sente cansada, sobrecarregada ou sozinha, Aline deixa uma mensagem:
“Nós talvez não consigamos resolver todos os seus problemas, mas queremos caminhar ao seu lado. Você passou tanto tempo cuidando de todo mundo… permita-se também ser cuidada.”
É justamente por isso que existe o Cuidando de Quem Cuida.