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Domingo, 1 de novembro de 2026
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Mortes registradas após extrações de sisos no Brasil reacendem o debate sobre planejamento, acompanhamento e sinais de alerta no pós-operatório

Publicado em 30 de outubro de 2026 às 12:14h

Mortes registradas após extrações de sisos no Brasil reacendem o debate sobre planejamento, acompanhamento e sinais de alerta no pós-operatório

Cirurgiã-dentista capixaba dá dicas importante sobre os cuidados e orientações necessárias no pré e pós-operatório da retirada do siso. Confira!

Extração dos sisos exige cuidados | Divulgação

A extração do dente do siso é um procedimento relativamente comum, mas que ainda desperta dúvidas e receios em muitos pacientes. Embora a cirurgia costume transcorrer sem intercorrências importantes, como em qualquer procedimento cirúrgico, existem riscos que precisam ser considerados. A avaliação individualizada, o planejamento e os cuidados no pós-operatório são fundamentais para uma recuperação adequada.

Segundo a cirurgiã-dentista Larissa Pavesi, a primeira etapa é avaliar se a extração realmente é necessária e quais particularidades o caso apresenta. “Cada paciente tem uma condição específica. Por isso, a decisão de extrair o siso deve ser tomada a partir de uma avaliação clínica e dos exames de imagem indicados para aquele caso. Radiografias ajudam a identificar a posição do siso, o grau de inclusão, a relação com o dente vizinho e, no caso dos sisos inferiores, a proximidade com o canal mandibular, por onde passam estruturas nervosas e vasos sanguíneos. Em determinadas situações, a tomografia pode ser indicada para esclarecer relações anatômicas e auxiliar na escolha da técnica cirúrgica. O planejamento permite identificar possíveis dificuldades e orientar o paciente sobre o procedimento e a recuperação”, explica.

É importante que o paciente informe ao dentista seu histórico de saúde, incluindo doenças crônicas, alergias, alterações de coagulação, gestação, experiências anteriores com anestesia e todos os medicamentos em uso. Anticoagulantes e determinados medicamentos utilizados no tratamento da osteoporose, por exemplo, podem exigir cuidados específicos.

Larissa revela que nem todo siso precisa ser extraído. A indicação depende da avaliação odontológica, considerando a presença de sintomas, doenças associadas, riscos futuros e as condições específicas do dente.

O que pode acontecer depois da cirurgia?

Entre as intercorrências possíveis está a alveolite, uma condição dolorosa relacionada à perda ou à ausência de formação adequada do coágulo sanguíneo que protege o local da extração. Esse coágulo é fundamental para a cicatrização inicial, e parte dos cuidados pós-operatórios serve justamente para preservá-lo.

A alveolite costuma provocar dor intensa, que pode aparecer ou piorar entre o segundo e o quinto dia após a cirurgia. Gosto desagradável na boca e mau hálito também podem ocorrer. Diante desses sintomas, é importante procurar o cirurgião-dentista para avaliação.

Infecções também merecem atenção. Dor, inchaço e limitação para abrir a boca podem fazer parte da recuperação inicial, e o edema pode aumentar até o segundo ou terceiro dia. O sinal de alerta está principalmente na evolução: sintomas que se intensificam, febre, secreção ou piora progressiva precisam ser avaliados.

Outra possível complicação é a alteração de sensibilidade na língua, no lábio ou no queixo, sobretudo quando há proximidade entre as raízes do siso inferior e estruturas nervosas. Essas alterações podem ser temporárias, mas, em alguns casos, persistem e exigem acompanhamento especializado.

Os cuidados que fazem diferença no pós-operatório

Larissa pontua que, nas primeiras 24 horas, as recomendações costumam incluir repouso, compressão com gaze pelo tempo indicado pelo profissional e aplicação de compressas frias externamente, conforme a orientação recebida. O paciente ainda deve evitar bochechos vigorosos, cuspir repetidamente, usar canudo ou manipular a ferida com a língua e os dedos, pois essas ações podem deslocar o coágulo.

Algumas outras orientações principais são:

Alimentação: nos primeiros dias, a preferência deve ser por alimentos macios, frios ou mornos, com retorno gradual à consistência habitual de acordo com a evolução da recuperação. Alimentos duros, crocantes ou com sementes podem traumatizar a região ou ficar retidos no local operado, por isso, é importante evita-los. Manter boa hidratação.

Higiene bucal: deve ser mantida com cuidado. No primeiro dia, é importante não traumatizar a área da cirurgia. A partir de 24 horas, em geral, podem ser iniciados enxagues suaves, conforme as instruções do dentista. A escovação dos demais dentes deve continuar, porém, evitando agressões à ferida.

Tabagismo e álcool são fatores de risco: cigarros e dispositivos eletrônicos para fumar podem prejudicar a cicatrização e aumentar o risco de alveolite. O ideal é interromper o uso antes da cirurgia e permanecer sem fumar durante a recuperação, pelo período recomendado pelo profissional. O álcool também deve ser evitado conforme as orientações recebidas, especialmente quando há uso de medicamentos ou sedação.

Medicamentos: o paciente deve seguir as doses e os horários prescritos. Não é recomendado associar analgésicos ou anti-inflamatórios, iniciar antibióticos ou prolongar tratamentos sem orientação profissional. A necessidade de cada medicamento depende do histórico clínico e das características do procedimento.

Quando procurar ajuda imediatamente?

Sangramento que não cessa após compressão firme e contínua, dor intensa ou progressiva, inchaço que piora após os primeiros dias, febre e secreção são sinais que justificam contato rápido com o cirurgião-dentista. Dormência nova ou persistente na língua, no lábio ou no queixo também deve ser comunicada ao profissional.

Já a dificuldade para respirar ou engolir, especialmente quando acompanhada de inchaço progressivo na boca, mandíbula ou pescoço, é uma emergência médica e exige atendimento imediato.

Para Larissa, a comunicação das orientações é parte importante da prevenção. O paciente precisa saber não apenas o que fazer, mas também por qual motivo cada cuidado é necessário e a quem recorrer caso surjam sintomas inesperados.

“Entregar as orientações por escrito, explicar as restrições e deixar um canal de contato definido ajuda o paciente a seguir os cuidados corretamente. A ansiedade, a dor e até os efeitos da sedação podem fazer com que parte das instruções seja esquecida. O acompanhamento precisa considerar essas dificuldades”, afirma.

A recuperação após a extração do siso varia conforme a posição do dente, a complexidade da cirurgia e as condições individuais de saúde. Por isso, mais do que prometer uma recuperação rápida, a recomendação é respeitar as orientações específicas para cada caso e procurar atendimento sempre que a evolução não for a esperada.

Cirurgiã-dentista Larissa Pavesi | Divulgação

Casos noticiados ampliam debate

Mortes registradas após extrações de sisos no Brasil chamam a atenção para a importância da identificação precoce de complicações no pós-operatório. Entre os destaques está o de Isadora Belon Albanese, de 18 anos, que morreu em 2023, em São Paulo, após complicações infecciosas.

Os pais da jovem, inclusive, lançaram uma petição pública defendendo a criação de um protocolo nacional para a extração dos dentes, com o objetivo de padronizar orientações e reforçar os cuidados envolvidos na cirurgia. A discussão também chegou ao Congresso Nacional, com propostas relacionadas à adoção de medidas de segurança e à realização de exames pré-operatórios. 

O caso mais recente noticiado foi de Tainá Souza Barbosa, em São Carlos (SP), em junho deste ano. Inicialmente, ela foi atendida com queixa de inchaço no rosto e dor na região da extração do dente do siso. Após alguns dias, além de dor de ouvido, de garganta e febre, o quadro evoluiu para falta de ar, congestão nasal e crise asmática, até chegar a duas paradas cardíacas. 

De acordo com Larissa Pavesi, embora sejam episódios excepcionais e cada caso tenha suas próprias circunstâncias, os fatos reforçam a relevância da avaliação individualizada, do planejamento cirúrgico e do acompanhamento após o procedimento.